Mais da
metade dos alunos do 9° ano querem trabalhar e estudar
Mariana Tokarnia
Repórter da Agência
Brasil
Brasília
- Começar a ganhar o próprio dinheiro, seja para ajudar a família seja para
pagar os próprios gastos, é o desejo de mais da metade (55%) dos estudantes
brasileiros que cursam o 9° ano do ensino fundamental. Eles não querem sair da
escola, pretendem conciliar as horas de estudo com as jornadas nas empresas. Antes
disso, ainda no 5° ano - se abaixo dos 14 anos, proibidos por lei - 14% dos
alunos de escolas públicas já trabalham fora de casa.
Os dados foram levantados pelo QEdu: Aprendizado em Foco, uma parceria entre a Meritt e a Fundação
Lemann., organização sem fins lucrativos voltada para a educação. A pesquisa
foi feita com base nos questionários socioeconômicos da Prova Brasil 2011,
aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira (Inep), divulgada em agosto do ano passado.
Dos 1.992.296 de alunos do 9° ano que responderam
à pesquisa, 1.075.628 (55%) pretendem estudar e trabalhar, 614.838 (31%) querem
continuar apenas estudando e 33.487 (2%) querem largar os estudos e se dedicar
apenas ao trabalho. No 5° ano, de 2.280.315 alunos, 294.011 (14%) trabalham. A
Constituição Federal proíbe qualquer trabalho para menores de 16 anos, salvo na
condição de aprendiz a partir dos 14 anos.
“Podemos inferir pelos dados que aqueles que
ainda estão no 5° ano vivem em situação mais delicada de pobreza e trabalham
muitas vezes ajudando as famílias. Já os alunos do 9° ano estão entrando no
mercado e alguns abandando as escolas”, diz o responsável pelo estudo, o
coordenador de Projetos da Fundação Lemann, Ernesto Martins.
O levantamento mostra que, entre os alunos do 5º ano, as maiores
porcentagens dos que trabalham estão na Região Nordeste: Alagoas (22,1%),
Pernambuco (21,8%) e Bahia (20,6%). A região tem renda per
capitamédia de R$ 396 mensais, de acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As demais regiões do país têm
renda per capita mensal
acima de R$ 700 e na Região Norte o valor é R$ 440.
Quando
se trata de alunos do 9° ano, o perfil muda. O número maior de estudantes que
pretendem estudar e trabalhar está em regiões mais ricas: Distrito Federal
(65,7%), seguido por Santa Catarina (65,1%) e pelo Espírito Santo (62,5%). Os
estados com maior porcentagem de alunos que pretendem apenas estudar estão no
Norte e Nordeste: Maranhão (41,2%), Acre (41%) e Amapá (40,8%). As maiores
porcentagens de estudantes que querem apenas trabalhar estão em São Paulo
(2,5%), Pernambuco (2,2%) e no Ceará (2%).
De acordo com a secretária executiva do Fórum Nacional de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, Isa de Oliveira, o trabalho a
partir do 9° ano pode ser positivo se for como aprendiz. “O programa vai exigir
do adolescente a continuidade dos estudos, além de cobrar um bom desempenho
escolar. Em outras condições, trata-se de uma inserção no mercado de trabalho
que pode motivar o abandono e a negligência com a escola."
Os
dados do Ministério do Trabalho mostram, no entanto, que em 2012 foram
admitidos apenas 286.827 novos participantes no Programa Jovem Aprendiz – uma
parceria do governo com empresas particulares para inserção dos jovens no
mercado de trabalho. O número corresponde a 14,4% dos estudantes que desejavam
trabalhar e estudar. Segundo o ministério, há capacidade para maior absorção.
Caso todas as empresas de médio e grande portes destinassem um mínimo de 5% das
vagas para os adolescentes, como determina a legislação (Lei 10.097/00 e
Decreto 5.598/05), haveria pelo menos 1.236.051 novas admissões por ano.
Analisando os números, a diretora executiva do
Todos pela Educação, Priscila Cruz, tem outra preocupação: "Os dados não
mostram aqueles que estão fora das escolas e do mercado de trabalho. Os jovens
em idade escolar que não estudam nem trabalham têm aumentado em número no
Brasil". O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que,
de 2000 a 2010, o número dos chamados nem nem, jovens de 15 a 29 anos que nem
estudam nem trabalham aumentou em 708 mil. "Precisamos olhar também para
eles", diz.
http://agenciabrasil.ebc.com.br
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